domingo, 25 de maio de 2014

LILITH - A Origem do Mito


Mesmo não fazendo parte de um grupo religioso, grande parte das pessoas conhece o mito da criação. A criação do mundo, das plantas, dos animais e, por fim, a coroa da criação: o homem e a mulher – Adão e Eva. Segundo a Bíblia e a Torah, Deus criou Adão e Eva à Sua imagem e semelhança, e a partir deles, deu início à história da humanidade. Deus criou Adão, e de sua costela, fez Eva, sua companheira, sua auxiliadora. Gênesis 2.18-25 (Bíblia) . 

Contudo, existem outras explicações para a história da origem do mundo, nas entrelinhas dessas versões. Em versões marginais, encontramos Lilith, a primeira esposa de Adão, criada como ele, antes de Eva. Em princípio, Lilith e Adão eram um só, sendo separados em seguida, vivendo assim, um intenso amor. Ao se confrontarem, Lilith se afasta de seu marido e é expulsa do paraíso. Desesperado em sua solidão, Adão pede por uma nova companheira, surgindo assim, Eva “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” Gênesis 2.23 (Bíblia). O mito de Lilith é um dos mais mal-compreendidos dos mitos, sendo até mesmo banido da tradição escrita, quando esta foi compilada.

A primeira mulher de Adão, um demônio, uma succubus, quem foi Lilith e onde podem ser encontradas as fontes de sua origem? 

Tudo tem seu início na “Tradição Oral”. Podemos afirmar que tradição oral é “a preservação de histórias, lendas, usos e costumes através da fala. Origina-se do primórdio dos tempos, quando ainda não havia a escrita e os materiais que pudessem manter e circular os registros históricos” (Wikipedia) . Para que a fé não se perdesse com o tempo, as histórias, leis e orientações religiosas eram passadas oralmente de geração em geração em algumas culturas. “Os 1ºs elementos foram escritos longos, repetidos de geração em geração e evocam o destino de grandes personagens, ou a origem de um rito.” (MARTIN-ACHARD). 

Vemos isso claramente na história dos israelitas: “Nesse dia cada um dirá a seu filho: Assim faço pelo que o Senhor fez por mim quando saí do Egito. Isto lhe será como sinal em sua mão e memorial em sua testa, para que a lei do Senhor esteja em seus lábios [...]” Êxodo 13.8,9 (Bíblia) . Os testemunhos da Torah ou Pentateuco – os primeiros cinco livros da Bíblia – são escritos pela fé dos Rabis, mas também são testemunhos de lendas, mitos, sagas e usos folclóricos populares, que os Rabis usavam para explicar as origens do mundo e da humanidade.


O mito de Lilith vem da tradição oral, reunida nos textos da sabedoria rabínica, e se coloca ao lado, anos depois, da versão bíblica dos sacerdotes. Encontramos Lilith no Zohar – livro do Esplendor, uma obra cabalística do século 13 que constitui o mais influente texto hassídico – no Talmude, o livro dos hebreus, nos estudos sumérios e acadianos e nos testemunhos orais dos rabinos sobre o Gênesis.


A falta de registros sobre Lilith na Bíblia pode ser explicada pelo fato de sua lenda ter sido perdida ou removida durante a época da transposição de versões das tradições do Pentateuco, além das modificações sofridas pelos Pais da Igreja – líderes da igreja cristã que começaram a ser chamados dessa forma por volta do ano 95 d.C. 

O Pentateuco foi escrito por diversas tradições. Entre essas tradições encontramos: a tradição javista – que relata a criação (Gênesis 2 a 4), a eleição de Abraão e a libertação do Egito, e termina com a ocupação da terra prometida. Escrito no reino de Judá, foi o desenvolvimento de um antigo credo ritual lembrando as diversas etapas da história do povo eleito (Dt 26.5-10; Js 24.2-13) – e a tradição sacerdotal – escrita por sacerdotes exilados na Babilônia que, sob influência de Esdras, no século V a.C., fazem este documento, que contém uma série de leis, em grande parte cultuais; uma extensa narração da História Santa, que começa com a criação (Gn 1) e conta as alianças sucessivas que Deus fez com Noé, Abraão, Moisés e com o sacerdócio. 

A transposição dessas tradições influenciou grandemente na definição das histórias e mitos que ficaram e foram aceitos como verdade. Esse é um dos principais motivos da falta de conhecimento por parte dos ocidentais a respeito do mito de Lilith, e a causa da repulsa por parte dos cristãos, quando têm acesso a informações extremamente equivocadas a seu respeito.


“Lilith, para nós, nasce, talvez, do sonho ou da narrativa dos Rabis, nasce de uma necessidade ou de uma fantasia coletiva” 

(SICUTERI). Instaurado na imaginação, como explicação daquilo que não se pode racionalizar, o mito de Lilith não só se fixou nas culturas antigas, como se tornou o arquétipo da Grande Mãe em diversas épocas. 

O demônio que come crianças, a succubus que possui os homens enquanto dormem, a Lua Negra, a Bruxa, enfim, infindáveis versões relatam sua existência e nos fascinam, por representarem as possíveis respostas para estereótipos femininos que não se adéquam ao que é pré-ordenado. 

Antes de negarmos o conhecimento a respeito de Lilith, ou simplesmente rotulá-la, é importante e compensatório conhecermos sua origem, história e a importância de seu mistério na busca da compreensão de nós mesmos, pois “falar sobre Lilith não tem a ver com o racional, é uma fantasia” (SICUTERI) . Lilith desperta em nós o deslumbramento, nos seduz, nos encanta como um feitiço. Seja bem-vinda/o ao seu mito, à sua história, se deixe levar pelo seu encantamento.

Fontes: Bíblia Nova Versão Internacional pt.wikipedia.org/wiki/Tradição_oral MARTIN-ACHARD R. “Como ler o Antigo Testamento” Aste SICUTERI, Roberto. “Lilith, A Lua Negra”. Paz e Terra, São Paulo, 1990.

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